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História Parque do Ibirapuera


O PAVILHÃO - PARQUE DO IBIRAPUERA

O projeto de construção de um parque público no Ibirapuera faz parte da história de São Paulo desde a década de 1920 do século passado. Já em finais do século XIX, as terras da vasta região conhecida como Várzea de Santo Amaro haviam sido incorporadas ao município, mas foi o desenvolvimento urbano da cidade a partir dos anos 10 que levou à sua efetiva ocupação. Grandes projetos urbanos, como a construção da represa de Guarapiranga e os empreendimentos imobiliários da Companhia City, haviam finalmente colocado a região do Ibirapuera num corredor de circulação que se mostrava promissor para os negócios. Foi com essa perspectiva que, em 1918, o então prefeito Washington Luís autorizou o loteamento de uma parte da área, hoje correspondente ao Jardim Lusitânia.

Logo depois, porém, na gestão do prefeito José Pires do Rio, já se pensaria em aproveitar as características naturais da região para a construção de um grande parque público. Naturalmente, esta proposta se inseria num projeto modernizador da cidade que, com seu crescimento, tornaria cada vez mais necessários esses espaços verdes para garantir a saúde ou, como então se dizia, a “higiene” das populações urbanas. Em um relatório de 1927, declara o prefeito Pires do Rio:

“Situados na planície que começa no sopé da colina da Avenida Paulista, e fica entre o fim da Rua Brigadeiro Luiz Antônio, a Estrada de Santo Amaro, o córrego Uberaba, a cuja margem esquerda fica Indianópolis, limitados pela Vila Clementino e Vila Mariana, esses terrenos da Invernada dos Bombeiros e da Chácara Ibirapuera se prestam, admiravelmente, à construção de um imenso jardim ou parque, com área igual a do Hyde Park de Londres, igual a metade do Bois de Boulogne, de Paris”.

A Invernada dos Bombeiros a que se refere o relatório correspondia a uma área de propriedade do Estado, que foi incorporada ao município mediante permuta por um terreno na Água Branca, onde se localizava o viveiro municipal de plantas. A transferência desse viveiro para o novo terreno no Ibirapuera marca efetivamente o início da história do parque que ali seria construído. Sua instalação na área, em 1928, daria lugar logo em seguida ao plantio de eucaliptos, graças ao qual foi possível começar a drenar a região pantanosa, que não por acaso conservava a denominação tupi de “ibira puera”, que significa “pau podre”. E já no ano seguinte surgiria uma primeira proposta urbanística para o parque, de autoria de Reinaldo Dierberger. Dentro da concepção higienista dominante da época, o projeto de um grande parque popular incorporava à idéia de embelezamento da cidade também os benefícios que ele traria para a saúde pública, garantindo um espaço para cuidar do corpo e entreter e descansar a alma na contemplação da natureza. Assim, o projeto previa a criação de extensos gramados e jardins articulados por caminhos que se abririam para várias perspectivas, além de áreas destinadas a esportes, jogos, corrida e ginástica. Subsidiariamente, as edificações deveriam comportar espaços para concertos e restaurantes.

Uma modificação importante desse projeto seria, no entanto, introduzida em 1930, pelo então Secretário de Viação e Obras Públicas, Francisco Prestes Maia. Ao apresentar seu Plano de Avenidas para a cidade, nele eram incluídas também diretrizes para o futuro parque. A proposta levava em conta o loteamento de 1918, que já então previa que a área seria ocupada por casas de alto padrão, nos moldes dos empreendimentos da Companhia City no Jardim América. Assim, propunha-se que o parque fosse dividido em duas partes separadas por este loteamento, e tratadas de maneira distinta segundo o uso social a que destinavam. A parte maior, mais próxima aos bairros de classe alta, teria um tratamento diferenciado, “com mais arte e delicadeza”. Já a parte menor conservaria a vocação higienista de parque popular segundo o projeto de Pires do Rio, destinando-se a esportes e recreação. Uma novidade era a ênfase nos esportes aquáticos que poderiam ser praticados na área, aproveitando a depressão natural do terreno, a exemplo do que já então se planejava para a região de Interlagos, no entorno das represas de Guarapiranga e Billings. O projeto previa que o loteamento deveria seguir o modelo da Cidade Jardim implantado pela Companhia City, e que a ligação entre as duas áreas do parque se faria por meio de extensos parkways.

Todavia, com a revolução de 1932 e as mudanças na política municipal que dela resultaram, o projeto do parque tomaria outros rumos. Sendo o governo do município assumido por um novo prefeito, Gofredo da Silva Teles, pela primeira vez foi legalmente aprovado um projeto para o parque em julho daquele ano, incorporando legislação anterior, de 1929, que previa a transferência do Hipódromo da Mooca para a área do Ibirapuera. Para a execução deste projeto, foi mais uma vez chamado Reinaldo Dierberger que, no entanto, modificou-o em alguns elementos importantes. Sua proposta incorporava o traçado viário existente e o prolongamento projetado da Avenida Brasil, mas desconsiderava o loteamento de 1918, voltando a tomar toda a área do parque como uma única unidade. Ali seriam organizados os espaços destinados a atividades desportivas, recreativas e culturais, em meio ao conjunto de passeios, ruas, caminhos, avenidas, lagos e bosque, prevendo-se igualmente uma área para a instalação do Hipódromo a ser transferido do bairro da Mooca.

Entretanto, já no ano seguinte questões de ordem técnica levariam mais uma vez a modificar essa proposta. De fato, a Repartição de Águas e Esgotos de São Paulo (RAE) manifestara seu desacordo com o projeto aprovado de Dierberger, por não contemplar problemas de escoamento de águas pluviais e esgotos. Assim, a Divisão de Obras Públicas se encarregaria de reformulá-lo segundo o parecer da RAE, sendo esta nova proposta, a Revisão do Projeto do Parque Ibirapuera, legalmente aprovada em maio de 1933. De maneira surpreendente, o novo projeto, cujo memorial descritivo era assinado pelo engenheiro Marcial Fleury de Oliveira, trazia entre suas principais justificativas um argumento estético, invocando o efeito de perspectiva que seria obtido com a instalação, em um único nível, de um conjunto formado por piscina, cassino, praça circular e jardim de rosas. Ao mesmo tempo, não se fazia ali qualquer referência ao viveiro de plantas instalado no Ibirapuera desde 1928.

Este seria um problema que, no final de 1934, levaria o diretor do viveiro, Manequinho Lopes, a manifestar sua indignação ao então prefeito Fábio Prado, diante da perspectiva de ter que desocupar os terrenos do Ibirapuera para onde os viveiros haviam sido transferidos, já que agora a área estaria incorporada ao parque. Sugeria por isso que aquela área fosse cedida à Diretoria de Jardins, para que ali pudessem se estabelecer viveiros definitivos, que atendessem à necessidade de embelezamento da cidade, arborização das estradas de rodagem e reflorestamento de terrenos públicos. E justificava seu pedido argumentando que os terrenos, pertencentes à Prefeitura, eram os que ofereciam condições mais apropriadas para a instalação do viveiro, não só pela topografia como pela proximidade com o parque, por necessitar de plantas variadas. Apesar da oposição dos técnicos da Divisão de Obras Públicas, que insistiam em que o viveiro de plantas fosse transferido para outro local, a persistência do diretor Manequinho Lopes fez com que uma nova revisão do projeto do parque fosse empreendida para atender aos seus reclamos. A nova proposta foi idealizada em 1935 pelo engenheiro Werner Hacker, resultando em um redirecionamento das edificações projetadas para a implantação do parque, com o acréscimo de uma alça à praça central. Este projeto seria viabilizado graças à incorporação ao parque do Ibirapuera dos terrenos destinados em 1929 ao Hipódromo da Mooca, que depois foi transferido para o atual Jockey Clube da Cidade Jardim, inaugurado em 1941. Assim, Manequinho Lopes conseguiu que a área por ele pleiteada fosse cedida à Divisão de Jardins, já que não estava incluída no projeto aprovado para o parque em 1932. Desde então, o Viveiro de Plantas Manequinho Lopes acha-se definitivamente instalado no local.

A análise desse conjunto de projetos aprovados para o Parque do Ibirapuera feita hoje por urbanistas e arquitetos constata que nenhum deles chegou a ser completamente finalizado. Processos internos de repartições públicas municipais e fotos aéreas da época comprovam que apenas parte do sistema viário principal foi executada. As edificações, passeios e jardins propostos não chegaram a sair do papel, enquanto os lagos que aparecem em alguns desenhos não passavam de poços de pouca profundidade que irrigavam o viveiro de plantas. Com relação ao último projeto de 1935, só dez anos depois se veria alguma preocupação com a sua execução, e ainda assim de maneira simplificada, no Plano de Melhoramentos para a cidade proposto pelo prefeito Prestes Maia. Ali o parque aparece representado por uma grande praça circular tendo ao centro um marco, como ponto de confluência de várias vias públicas. Só em 1948 equipes internas da Prefeitura apresentariam um novo projeto para o parque. Do projeto de 1935, este novo projeto preservava apenas o desenho da praça circular e sua alça inferior, o traçado do prolongamento da Avenida Brasil e a localização do Viveiro Manequinho Lopes. No mais, tratava-se de uma proposta que compreendia grandes edificações, como comprova suas áreas e valores de construção definidos nos únicos documentos que puderam ser encontrados, sem que seja possível determinar seu estilo arquitetônico ou uso definitivo. Todavia, esse projeto de 1948, conservando o desenho da praça circular, teve como resultado, tal como previsto pelo governo municipal, a implantação do Monumento de 9 de Julho no centro dessa praça.




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