As flores
Os frutos
Os bichos
Os pássaros e os seres
O Brasil de Francisco Brennand
“Nós, nordestinos, nos preocupamos em ser fieis à terra, aos mitos, às histórias, às formas e às cores da região. Não nos damos por satisfeitos senão quando sentimos que tais coisas estão agredindo os outros à primeira vista, de dentro de nossas obras.”
Ariano Suassuna
Esta exposição é uma pálida homenagem que aqui de São Paulo e do Museu Afro Brasil prestamos ao mestre Francisco Brennand pela passagem de seus oitenta anos de vida.
Dizemos pálida porque sabemos o quanto ele é merecedor de muito mais do que uma pequena mostra de seu grande talento e por tudo que construiu ao longo desses anos para dignificar a arte brasileira.
Todos sabem o quão pouco este país cuida da relevância em exaltar aqueles que de fato contribuem com seu esforço e seu talento, e até com renúncias quase religiosas, para construir a obra de uma vida inteira como a do pintor e escultor Francisco Brennand. Foi-se o tempo em que se dava a merecida importância aos museus e às instituições culturais dedicadas a preservar a memória da historia passada e recente do Brasil. Cada vez mais a chamada grande mídia, ocupada com os graves problemas que afligem o País, põe no limbo os aspectos culturais e artísticos que celebram aspectos originais da nossa cultura e que se tornam cada vez mais significantes diante da grande contribuição de artistas e de homens que fizeram ou se fazem importantes na consolidação da identidade nacional.
De sua personalidade e de sua obra muito já se escreveu, e também do seu atelier na Várzea no Recife, um grande espaço em que sistematicamente ele guarda tudo por ele produzido, mais ainda a monumental instalação nas ruínas da antiga fabrica da família: milhares de esculturas, painéis, murais, jardins, como o de Burle Marx, numa atmosfera única em meio à vegetação luxuriante da Mata Atlântica.
Com isso Brennand faz um grande e generoso gesto para a preservação da mata original e ainda oferece aos seus visitantes a mais nova obra da arquitetura brasileira, a capela projetada pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha sobre as ruínas da antiga casa-grande da fazenda.
Contudo, no silêncio do seu espaço, ele segue criando suas esculturas, suas novas e atuais pinturas bem distintas dessas produzidas por ele entre as décadas de 60 e 80.
Escolhemos essas obras por serem pouco vistas nas muitas exposições que Brennand tem realizado nesses últimos anos. Elas representam de fato um outro tempo de sua inquietação, uma procura de expressar com significado um lado seu nordestino, bocejando a atmosfera tropical e selvagem brasileira com o gosto da terra, bravia, luminosa, de cores fortes e quentes.
Uma pintura marcadamente figurativa, acentuada por um grafismo como um halo em torno da figura; uma linha contínua sinuosa, um arabesco barroco e sensual, elegante como fundo da representação do tema.
Não seria desdouro dizer do quanto Brannand se inspirou na pintura plana de Matisse, na acentuação gráfica e na modulação da cor em Leger, ou na fase antropofágica de Tarsila do Amaral. Essa fase de sua pintura absorve essas influências da pintura desses mestres sem, contudo, deixar de ser original e reconhecidamente brennandiana. Elementos geométricos com figuras mastigadas pela antropofagia em transe representam a construção desse universo das coisas todas juntas, como grandes naturezas-mortas com objetos plasmados num fundo abstrato sem volumetria ou a representação simbólica de elementos sólidos que se entrelaçam e se desintegram no espaço como uma explosão de um átomo.
Essas pinturas têm na sua composição algo de monumental, de eloqüentemente exacerbado e desafiante. Uma espécie de gigantismo de seres em metarmofose, essas lagartas, mandacarus, flores, frutos, formas geométricas, troncos, animais, espinhos dançando numa metamorfose ilusionista de planos, relevos, claros e escuros, um frenesi de ritmos e tensões. Elas também têm no seu mais puro dogma a tentativa de se criar uma obra brasileira voltada para as nossas raízes multiculturais, apesar de todos os preconceitos postos na nossa dita cultura de colonizados.
Em toda a construção dessa grande pintura reside a mestria do grande colorista que é o Francisco Brennand. Sua pintura desse tempo tem mesmo o sopro da pintura, do domínio da cor, da composição e de criar uma atmosfera surrealista, que, aliás, é a linguagem que impregna toda sua obra, incluindo seus relevos, suas esculturas, seus painéis e murais mesmo e, sobretudo, sua pintura atual, em que ele acrescenta, discursivo, metáforas para tratar sugestivamente dos embates e provocações literárias com as quais sua obra como um todo se envolve neste momento.
Brennand é um intelectual que permeia todo seu conhecimento humanista com a sua obra artística, um forte desejo exercido no dia-a-dia do seu cotidiano. Provavelmente ele encontrou o ponto de equilíbrio para tornar materializadas todas ou quase todas as questões subjetivas e históricas de nosso tempo. Ele também é um homem político, consciente do seu papel como investigador e colaborador de políticas públicas no tempo do governador Arraes e quando teve participação ativa na campanha de alfabetização do educador Paulo Freire naqueles memoriais anos 60..
Claro que a curadoria dessa exposição que dedicamos a Francisco Brennand não tem um tom saudosista, nem pretende estabelecer algum critério para essa escolha ou qualquer outra fase do artista, pois entendemos que sua obra se consolida como um todo sólido, em permanente inquietação e proposição, questionamentos; até mesmo sua relutância com o mercado de arte não deixa de ser um gesto considerável diante de toda sua grande produção artística aprisionada nos seus espaços. Tanto é assim que suas esculturas presentes nessa mostra são um contraponto de como ele transfere para a tridimensionalidade seus questionamentos estéticos, com a mesma vitalidade e o traço muito claro e orgânico do seu trabalho.
A volúpia é mesmo uma constante em sua obra de escultura, de desenhos ou das pinturas antigas e recentes; elas se completam como expressão de um tempo ou de todo um tempo de procuras desse obstinado trabalhador de formas orgânicas, viscerais, dispostas a nos atacar como um ser vivo e lúdico. Nessa exposição está ainda um Pássaro Roca gigante, uma escultura que contradiz pela verticalidade essa idéia única da volumetria da obra de Brennand; suas esculturas, que ocupam imensos espaços da Várzea, provam, ao contrário, que ele sempre foi afeito aos desafios dos grandes murais, das grandes empenas de edifícios, da repetição das pedras cerâmicas produzidas para os grandes espaços da arquitetura.
Ainda assim propusemos a Brennand o desafio de um painel em cerâmica atual com a questão do grafismo, da construção da linha, da retomada monumental da composição com elementos inerentes à sua obra de antes, e aí está o resultado: um painel de seis metros de comprimento por dois e sessenta de altura. Tudo isso para mostrar a vitalidade de uma obra que não estacionou no tempo, mas que continua a desafiar o próprio artista e propor a ele mesmo o verdadeiro sentimento que rege a criação artística, como o da procura, da inquietação e da contestação de si mesmo no tempo, no espaço e no eterno jogo da criação.
DOIS EM UM - José do Patrocínio e Bordalo Pinheiro
Exposição comemorativa dos 100 anos de morte de dois personagens do Séc. XIX, José do Patrocínio, que foi, além do Tigre da Abolição, também colaborador da Revista de Rafael Bordalo Pinheiro, O Bezoiro criada em 1877.
Dois em Um é uma metáfora para traçar a trajetória Política e sócio-cultural desse Brasileiro e desse Português que se encontraram no Rio de Janeiro e morreram no mesmo ano de1905, um em Lisboa e o outro no Rio de Janeiro.
Patrocínio morreu escrevendo sobre a morte de Rafael. Este é o texto deixado incompleto, assim como narra Patrocínio Junior no poema: Rafael Bordalo Pinheiro.
José do Patrocínio, chamado o Tigre da Abolição além da grande luta abolicionista, sempre teve enorme participação na vida cultural do Rio de Janeiro, como escritor, poeta, jornalista e inventor.
A mecânica da exposição se organiza com uma linha do tempo para envolver outros personagens importantes na campanha abolicionista como Antonio Bento, Luiz Gama, Joaquim Nabuco, André e Antonio Pinto Rebouças, Princesa Isabel e a Família Imperial Brasileira.
A exposição concretiza todo esse período com obras originais tais como móveis, gravuras, pinturas, caricaturas e textos dos dois personagens e diversos autores da época.
A exposição em dois segmentos é que constitui duas visões do tempo. Foi pensada para formar uma grande montagem como se fosse um enorme diorama ampliado pelos espaços.
Os Adornos de Rogélia Peres
Fios de Conta como Pintura
Rogélia mora e trabalha na cidade de Recife, Pernambuco.
Seus belos adornos, como se jóias fossem, são uma elaborada feitura com contas, miçangas e miçanguinhas, pedras semi-preciosas que ela originalmente compõe trançando extraordinárias fantasias de formas, ritmos e cores.
A feminilidade desses adornos vão além da fantasia destituída de significados. São mesmo jóias elaboradas com fino requinte e fino gosto de uma artista que inclui na sua criação um apurado sentido pela cor, e que muitas vezes nos remete a uma atmosfera das pinturas românticas de um Fragonard. Outras vezes, seu adorno e bordado de contas se aproximam dos enfeites africanos.
E sendo assim, esta exposição nos revelará uma grande criadora, que sai dos limites do simples enfeite, para transformá-lo num gesto de pura criação, onde a luz, o brilho, os ritmos, as gamas de cores, compõem uma inusitada paleta de maravilhosos e iluminados objetos, prontos para aderir ao corpo feminino.
Emanoel Araujo
Rubens Ianelli - Pinturas e pequenas esculturas
O talento do artista Rubens Ianelli desvelado no contraste entre os grandes formatos de suas pinturas e as pequenas formas de suas esculturas em pedaços carcomidos de madeira.
Kazuhiro Mori - Pinturas
A singular pintura abstrata do artista nipo-brasileiro Kazuhiro Mori, nutrida entre duas culturas contrastantes, exposta em telas que remetem a paisagens desérticas e à leveza do vento.
Brasil África Unidade Original - Fotografias e Vídeos
Fotografias e desenhos retratam paisagens celestes, imagens de satelites , remetendo ora às viagens através do Atlântico e à ancestralidade humana, ora aos vínculos permanentes entre Brasil e África expostas em fotos feitas no Sudão, no Quênia, na Bahia, no Vale do Amanhecer em Brasília.
O mais completo levantamento já realizado sobre a fotografia baiana desde as suas origens, em 1839, até hoje.
Coordenado pelo fotógrafo Aristides Alves, Maria Guimarães Sampaio escreve “Da Photographia à Fotografia 1839-1949”, enquanto Rubens Fernandes Junior e Gustavo Falcón escrevem sobre o período 1950-2006. O livro mapeia o trabalho de 107 profissionais antigos e contemporâneos cujos trabalhos estão registrados em 215 fotos especialmente selecionadas pelos seus organizadores.
Várias gerações de profissionais e diferentes técnicas utilizadas por eles integram o livro que destaca nomes como Mullock, Gaensly, Lindemann, Pierre Verger, Voltaire Fraga e os mais importantes fotógrafos das áreas do jornalismo, publicidade e de ensaios, ao longo da contribuição profissional que deram ao gênero na Bahia.
Acurada pesquisa realizada por Célia Aguiar e Maria Sampaio em jornais e arquivos públicos e privados, reproduzida por Adenor Gondim, permitiu a montagem de um expressivo mosaico de talentos, contextualizando a contribuição de cada um deles, proporcionando ao interessado pela história da fotografia baiana, ou pela própria história da Bahia, uma visão representativa de distintas épocas e de temas e técnicas a elas referentes.
O lançamento do livro “A Fotografia na Bahia” será marcado também pela exposição de 80 fotos abordando toda a trajetória contemplada pelo livro.
Nas pinturas de José Balmes e de Gracia Barrios o primeiro lugar está destinado a retraçar a presença das vítimas de certos combates emblemáticos de nossa história. O gesto que autoriza os signos reproduz a velocidade de uma pintura mural realizada sob condições de extrema restrição. Não há tempo, sequer, para escrever ou pintar uma letra “como se deve”. Não há letra que resista.
Nos papéis de 2004, Gracia Barrios reproduz a sobrevivência das pinturas de 1971 e 1972, muitas das quais são trabalhadas a partir de moldes que recortam as figuras e as fazem comparecer em seu grau zero de consistência. Esta foi a maneira de, em sua obra, recolher a sombra do desejo de representação social dos corpos, em condições de extrema ameaça à sua integridade identitária. Esses desenhos, por chamá-los de algum modo, expandem a linha do desejo como se fossem a antecipação das imagens perdidas de uma história sobre a qual a artista tem podido ser algo mais que testemunha; isto é, construtora do lugar que deve acolher os corpos que faltam. Uma política afetiva transformada em política de linha, no sentido que a palavra política se refere às condições de retenção da energia cromática e figural.
Já Balmes vem indicar a envergadura de um drama de inadequação. O referido torna-se impronunciável: só cabe o silêncio dessa grafia inepta com a qual Balmes escreve algo similar à palavra “assassinado”. Mais não se pode saber. O resto são traços indevidos que não podem senão assinalar a dificuldade de se remeter a um relato atribuído para localizar o que já não tem lugar nos arranjos das “grandes potências”. Daí que Balmes restitua ao campo artístico o lugar que se nega ao tema no campo político.
MUSEU AFRO BRASIL COMEMORA DOIS ANOS
COM MOSTRAS SOBRE DIVERSIDADE CULTURAL BRASILEIRA
Inspirada pelo programa Cultura Viva e pelos Pontos e Pontões de Cultura, a mostra Viva Cultura Viva do Povo Brasileiro reúne as exposições temáticas Território Ocupado, Um Olhar Sobre a Arte Brasileira, O Imaginário do Povo Brasileiro e Os Pontos de Cultura, que celebram o país e suas mais diversas tradições culturais e artísticas; a abertura, no dia 23 de outubro, marca a comemoração de dois anos do museu.
As exposições, montadas juntas e justapostas, comemoram a união entre as muitas linguagens das artes plásticas brasileiras, sem pretender fechar qualquer elo fixo entre elas. O erudito e o popular convivem lado a lado, sem maiores explicações acadêmicas. O caos, uma vez eleito como vetor de organização, propõe ao espectador a função de criar seus próprios nexos de sentido, mantendo o povo brasileiro e suas culturas como base de uma complexa construção de identidade. “Neste projeto, ‘povo’ deve ser compreendido em seu significado mais amplo, como patrimônio material e imaterial daqueles que ajudaram a construir a nossa identidade, sem exclusão”, explica o diretor do Museu e curador da mostra Emanoel Araújo.
Território Ocupado examina o grafite dos artistas de rua como linguagem inovadora e contemporânea. Um Olhar Sobre a Arte Brasileira revê muitos dos principais movimentos artísticos brasileiros do século XX e traz à tona artistas que escreveram a história cultural deste país. O Imaginário do Povo Brasileiro revela a produção material ligada à ancestralidade do povo brasileiro, obras às vezes catalogadas sob a categoria geral de ‘cultura popular’.
Finalmente, Os Pontos de Cultura documenta o trabalho de alguns Pontos já ativos e espalhados pelos rincões do país, e traz amostras de material produzido in loco.
O principal foco de Emanoel Araújo é apontar alguns caminhos para uma maior aproximação entre os Pontos e a vibrante criação artística brasileira. Para tanto, organizou uma exposição que busca justapor ações dos Pontos de Cultura com a memória artística, popular e erudita, do povo brasileiro. Logo, nem tudo o que será apresentado ao público é produção dos Pontos de Cultura, até porque estes também precisam ver o que está a seu redor. Mas esta troca e este desejo de se ver e ser visto possibilita um novo jeito de ver o Brasil.
“Este projeto, pelos olhares crítico e artístico presentes na maestria de Emanoel Araújo, estabelece pontes entre os Pontos ao alinhar seus contextos culturais e revela mais que áreas singulares do recorte plural das regionalidades, refletindo sobre a arte como permanente processo de troca, especialmente no meio da Cultura Popular”, destaca o Ministro da Cultura, Gilberto Gil. O ministro acredita que os Pontos de Cultura não redescobrem “brasis ocultos”, mas sim os revelam. Para ele, sob ação estratégica de um Programa que se legitima pelo trabalho em Rede, estes “brasis” tornam-se mais públicos, adquirem visibilidade nacional e internacional. Eles só estavam “ocultos” para determinado público ou para uma parcela da mídia resistente ao que é realmente inovador.
As exposições
Território Ocupado
Com esta mostra, o Museu Afro Brasil amplia-se, além da própria temática, para as questões mais amplas da arte contemporânea. A experiência que Speto, Nunca, Ciro, Melim, Kboco e Onesto desenvolvem nas ruas, comunidades e entre os grupos de grafiteiros, aponta um conjunto de novas possibilidades expressivas para a cultura da imagem contemporânea. Ao invés de incitar o exotismo da linguagem do grafitti, Território Ocupado amplia o contato com artistas que agem fora do circuito convencional da arte e que, neste caso específico, representam a nova geração do grafitti, revelando habilidades e raciocínios paralelos à onda de apropriações tecnológicas da imagem, em softwares pré-determinados e fórmulas copiadas da cultura pop. Valorizar a trajetória de artistas dotados de uma capacidade positiva e descomunal de improvisar, adequar-se à realidade do imediato, do momentâneo, às linguagens tradicionais e à transcendência de suportes, este é o objetivo do Território Ocupado.
Um olhar sobre a arte brasileira
A arte brasileira do século XX é rica de artistas que inauguraram movimentos, articulados como grupos ou não, que marcaram a história e o olhar brasileiros. A mostra Um olhar sobre a arte brasileira consagra alguns dos muitos artistas dessa chamada “arte erudita”. O visitante poderá conferir alguns nomes cujas obras movimentaram as Bienais Internacionais de São Paulo, fundando novas estéticas, como abstração informal ou concretismo, muitos dos quais circularam entre o desenho, a pintura, a gravura e a escultura com grande majestade, como Francisco Brennand, Nelson Leirner, Marcelo Grassmann, Carlos Scliar, Danilo di Prete, Tomie Ohtake, Yolanda Mohalyi, Arcangelo Ianelli, Antonio Maluf, Hércules Barsotti; outros que se firmaram por seus procedimentos de apropriação e reciclagem de material da natureza orgânica, entre eles, Franz Krajcberg e Ramiro Bernabó; e alguns ainda que não são “classificáveis”, como Bispo do Rosário ou Bragança. Portanto, a exposição sobrevoa a arte brasileira desde a abstração informal, até as mais diversas experiências de figuração, e apresenta ainda trabalhos emergidos da nova geração de artistas contemporâneos, com suas linguagens híbridas e inovadoras, como Sidney Amaral e Washington Silvera.
O Imaginário do Povo Brasileiro
Neste espaço, o visitante terá uma exposição em que a expressão “arte popular” serve para designar aos criadores populares um lugar na produção artística em geral, lugar de uma autenticidade criadora que, embora não desenraizada da produção de uma comunidade em que se embasa, no entanto não se confina a ela nem cede à sedução fácil do mercado. A organização desta vertente de O Imaginário do Povo Brasileiro se deu através de três conceitos – ancestralidade, arcaísmos e permanências.
Os Pontos de Cultura
Esta mostra documenta o trabalho de alguns Pontos já ativos e espalhados pelos diversos Estados brasileiros, e traz amostras de material produzido in loco. A mostra contará com objetos, registros e ampliações fotográficas, áudio e vídeos, e revelará ao público uma pluralidade de Brasis desconhecidos.
Sobre o programa Cultura Viva
Das atividades iniciais do Programa Nacional de Cultura, Educação e Cidadania – Cultura Viva – elaborado pelo Ministério da Cultura há pouco mais de dois anos, emergiram os chamados Pontos e Pontões de Cultura. Os Pontos de Cultura, em toda a diversidade de abordagens e de ações pontuais, estimulando o trabalho com a dança, o teatro, a música e as artes plásticas no âmbito das comunidades locais, evidenciam a chamada Cultura, sem distinção entre popular e erudita, como mecanismo de geração e nutrição da própria vida do país.
Pontos são diversos, alguns preferem teatro, outros dança ou música, que pode ser erudita ou popular, ou então a mistura dos dois. Há os que preservam as tradições, os que perseguem o experimentalismo estético, a cultura digital, e também aqueles que se renovam tendo por fonte as tradições preservadas. Muitos estão nas grandes cidades, principalmente, favelas e periferias, outros em pequenos municípios, ou em aldeias indígenas, assentamentos rurais, comunidades quilombolas, universidades. Como desejo comum, a vontade de romper o silêncio que se traduz no estúdio multimídia e na conexão em rede. Um equipamento simples, de baixo custo, mas que permite gravar um CD, que pode ser de baião, hiphop, viola, violino, samba ou coro. Com o estúdio é possível colocar uma rádio no ar e transmiti-la por canal comunitário ou em ambiente web. Ou então uma TV. Cada Ponto recebe uma câmera digital e computadores com programas de edição em software livre, assim podem registrar as imagens que quiserem, suas expressões, histórias, personagens, lugares. Depois é trocar a arte de cada um.
O Museu Afro Brasil inaugurou a nova museologia
do acervo permanente e
mais 6 exposições: - “A Pele dos Filhos de Gea”
- Gaspar Gasparian. “Gasparian na África
- Anízio Carvalho
- Eustáquio Neves. “Máscara de Punição”, “Encomendador de Almas” e “Os Arturos”
- Caetano Dias
- Yedamaria
Dia 20 de Novembro de 2006, Dia da Consciência Negra, o Museu Afro Brasil inaugurou a nova museologia do acervo permanete, com destaque para a sala do Navio Negreiro. Dedicada à memória da travessia dos escravos da África até às Américas e compreendendo desde um esqueleto de navio até imagens ampliadas, a sala do Navio Negreiro inclui instalação audiovisual, documentos e objetos que se referem ao tráfico, comércio e castigo dos escravos.
Na mesma ocasião, foram inauguradas 6 exposições:
“A Pele dos Filhos de Gea”. Mostra com obras das artistas espanholas Isabel Muñoz e Maribel Domenech. Isabel Muñoz traz ao Brasil suas fotografias feitas na África, onde o corpo aparece principalmente a partir do recorte estético da escarificação. Nas fotos de Isabel Muñoz, a escarificação aparece não como mutilação, mas como voto sagrado de um povo que tem sua coerência cultural assegurada por rituais bastante específicos. O trabalho de Maribel Domenech será divido em duas partes, na verdade dois vestidos femininos que também apontam para uma chave de interpretação da vestimenta como marca tribal. Enquanto a artista trabalha com objetos e formas próprias do cotidiano, seu gesto amplia e transcende a determinação racional dos seus significados. O vestido é então uma estrutura externa desenhada de modo a disparar uma experiência interna.
Gaspar Gasparian. “Gasparian na África”. A mostra de Gaspar Gasparian é uma seleção de fotografias recém-descobertas pelo seu filho e que trazem o registro de uma viagem pelo continente africano, especificamente entre o Senegal e a Guinea. É uma oportunidade de se contemplar um outro lado deste fotógrafo, tão conhecido por suas construções fotográficas geometricamente construídas em estúdio ou no espaço urbano da cidade de São Paulo.
Anízio Carvalho. A mostra de fotografias de Anízio Carvalho traz para São Paulo a memória visual deste velho foto-jornalista baiano que, além de revelar por suas lentes momentos históricos da vida social, política, religiosa, sagrada e sincrética de seu Estado, deixou um legado de obras jornalísticas que são verdadeiras obras de arte, pelo que essas imagens transcendem da realidade do tempo e do espaço local em que foram feitas.
Eustáquio Neves. “Máscara de Punição”, “Encomendador de Almas” e “Os Arturos”. As três séries fotográficas deste artista mineiro tratam da ancestralidade afro-brasileira re-significada. A primeira série mescla a máscara de punição e o retrato da mãe do artista. A segunda série é uma homenagem a Seu Crispim, um remanescente do Quilombo do Baú que lida com o rito de passagem de encomendar a alma do morto. “Os Arturos” é uma série mais antiga do artista, que registra o cotidiano e a religiosidade do povo Arturo, quilombolas da cidade de Contagem, Minas Gerais.
Caetano Dias. A exposição do artista baiano apresenta sua série de cabeças feitas de açúcar de rapadura e algumas ampliações fotográficas. A obra de Caetano Dias lida constantemente com questões do sagrado que se constrói a partir do sincretismo entre cristãos e africanos. Este projeto do artista prevê o molde de cabeças de brasileiros de várias raças e procedências que depois são transformados em açúcar, numa alusão direta à história social dos negros na colônia, da escravidão e sua herança cultural.
Yedamaria. A exposição desta artista baiana, que já viveu nos Estados Unidos, será composta por pinturas e gravuras. A obra de Yedamaria é marcada pela composição vibrante de cores e pela forte delicadeza do gesto artístico, que representa as coisas do cotidiano com uma sensibilidade e um olhar marcadamente feminino.
Museu Afro Brasil inaugurou no dia 22 de agosto "Rever a Coleção Odorico Tavares: Do Gabinete do Jornalista, aos meus poemas aos meus pintores" que traz parte da coleção de Arte brasileira deste jornalista pernambucano, naturalizado baiano.
A qualidade da coleção de Odorico Tavares e a paixão que a ela devotava fez com que ele encomendasse ao arquiteto Diógenes Rebouças o projeto de uma casa para abrigá-la.
O belo projeto, implantado na escarpa do morro Ipiranga, desenvolvia-se em vários planos diferenciados, acompanhando a própria geografia do morro e criando um cenário magnífico para abrigar sua coleção de arte barroca, a imaginária brasileira e o mobiliário do século XVIII e XIX, bem como a invejável coleção de arte moderna, que ficava numa galeria de onde se tinha visão quase panorâmica da casa.
Havia na casa uma sala íntima, uma espécie de biblioteca e arquivo, na qual as muitas mapotecas estavam repletas de diversas gravuras, desenhos, álbuns e curiosidades de muitos artistas de sua admiração. Era ali onde estava a coleção quase que sagrada com as obras gravadas de Poty Lazarotto, Portinari, as ilustrações de Carybé, Carlos Thiré, Eros Martins Gonçalves, Livio Abramo, Lina Bo Bardi, Noêmia Mourão, os muitos álbuns de obras originais de Marcelo Grassmann, Djanira, Bandeira, Aldemir Martins, Axel Leskochek, Hansen-Bahia, Calasans Neto, coisas de um tempo em que era voga no Brasil tais edições limitadas, e muitos outros artistas que me fogem agora da memória.
Odorico adorava os artistas espontâneos, chegou mesmo a escrever sobre um deles, chamado Rafael, de quem nunca encontrei seus trabalhos. Mas em sua coleção existiam tantos João Alves, o engraxate negro de olhos azuis, que pintava na Praça da Sé, em Salvador, como também existem belas paisagens e visões da Bahia, pintadas por Willys. Odorico nutria também um enorme carinho pelo pintor Cardoso, com suas pequenas telas e seu enorme lirismo.
Já são vinte e cinco anos de ausência desse querido amigo de tantos anos, poeta, jornalista e colecionador, que viveu nos melhores tempos da Cidade do Salvador. Com certeza sua influência e seu gosto, sua ação política e social não deixou de ter grande ressonância na atmosfera cultural da cidade. A importância ímpar de sua coleção, nos levou a reinaugurar parte da exposição "Odorico Tavares, a minha casa baiana", previamente à disposição do público na Galeria do SESI, em São Paulo. No Museu Afro Brasil, a seleção inclui, entre outras, obras de Portinari, Di Cavalcanti, Pancetti, Aldemir Martins, Bandeira, Manabu Mabe, Carybé, além da extraordinária coleção pessoal de arte sacra baiana e pernambucana dos séculos XVII e XVIII.
Emanoel Araujo Curador
Num formato retrospectivo, a mostra da artista Carmen Calvo poderá ser vista no Museu Afro Brasil entre os dias 23de agosto e 22 de outubro. A intenção da mostra é apresentar ao público brasileiro uma dimensão clara da extensa e sólida carreira de uma das artistas mais importantes da Espanha.
A exposição Carmem Calvo, acolhe parte da trajetória de 30 anos desta artista espanhola que começa a produzir no início dos anos 1970, atinge o ápice quando representa seu país na Bienal de Veneza, em 1997, e prossegue reinventando-se até hoje. A mostra reunirá desde algumas obras inaugurais, como a série Compilações, até suas criações de 2004.
Calvo mistura suportes como a fotografia, a pintura, a escultura e instalações, e entre seus temas mais visitados estão o universo da infância e da religião. A montagem no Museu Afro Brasil traz duas instalações: a primeira, batizada de "Uma jaula para viver", e a segunda, "Tudo o que tenho buscado" concluída há dois anos.
A partir da exploração sutil do cotidiano, o trabalho de Carmen Calvo universaliza o que seriam meros dramas pessoais, trazendo para arte o que é da vida, aquilo que parece ser ficção e não é. Esse processo é perfeitamente identificável na primeira instalação, pensada a partir de uma notícia de jornal sobre a história de um garoto que foi colocado pelos pais, intencionalmente, numa jaula. A artista criou um quarto fechado com pequenos orifícios, por onde o público vê brinquedos e artigos infantis, e faz a clausura parecer ainda mais cruel.
O percurso proposto pela curadoria, assinada por Osbel Suarez, permite perceber as articulações poéticas e plásticas contraditórias da artista. Ora deixa transparecer uma certa melancolia carregada de humor sarcástico, ora faz alusão a uma ironia conceitual que deseja interpretar e reconstruir o mundo por meio do acúmulo de objetos simbólicos.
"A organização lembra aquela dos ex-votos nas paredes de igrejas ou no formato dos gabinetes de curiosidades, do século XVII e XVIII, que vieram dar lugar aos museus como os conhecemos hoje", destaca o curador. Suarez acredita que estas instituições, com suas tradições de formar, conservar e mostrar acervos, são fontes de inspiração para a artista.
Coincidentemente, o Museu Afro Brasil possui uma painel com dezenas de ex-votos na mostra de seu acervo.
Carmen Calvo estudou na Escola de Artes e Ofícios (1965-1970) e na Escola de Belas Artes de São Carlos (1968-1972). As obras da artista não se desvinculam do contexto histórico da Espanha dos anos 70, e inteirar-se desta história pode auxiliar num mergulho mais profundo na sua linguagem artística. É no final da década de 70 que a liberdade é restituída no país, e quando os jovens voltam a gozar dos seus direitos sexuais e artísticos. O ápice dessa liberdade foi o movimento La Movida Madrilena, do qual fez parte, ao seu lado de pensadores e artistas como Pedro Almodóvar. As obras "Les amis" e" L’espirit", que misturam colagem e desenho, parecem alusões a um êxtase sexual e à violência própria deste tempo.
Esta exposição é uma iniciativa do Ministério de Assuntos Exteriores e de Cooperação da Espanha, através da Direção Geral de Relações Culturais e Científicas, com apoio da Sociedade Estatal para Ação Cultural Exterior da Espanha (SEACEX) e da Embaixada da Espanha de Brasília.
O QUE É A SEACEX
Constituída 2000, a Sociedad Estatal para la Acción Cultural Exterior (SEACEX) tem a finalidade de mostrar, através das distintas manifestações artísticas, a realidade cultural espanhola passada e atual, contribuindo para melhorar o entendimento entre os povos e o diálogo entre as nações.
Carmen Calvo • de 23 de agosto a 22 de outubro de 2006
Chama-se África e Africanias de José de Guimarães – Espíritos
e Universos Cruzados a exposição que abre dia 5 de
junho e fica até 10 de setembro; um dos grandes nomes das
artes plásticas contemporâneas de Portugal será retratado
em 77 trabalhos (pinturas, esculturas, objetos e quadros com caracteres
gráficos de um alfabeto ideográfico criado por ele,
inspirado em ícones da arte negra) e 79 peças de
sua coleção africana, de preço incalculável.
Muitos críticos definem José de Guimarães
como um dos poucos artistas do mundo que respeita a arte sem os
ditames acadêmicos, que dão menos valor à chamada ‘arte
primitiva’. Após viver dois angustiantes anos de conflitos
na África, sem conseguir entender os conceitos culturais
do continente, na década de 1970, ele estudou a etnografia
africana, especialmente a angolana. José de Guimarães
alcançou um conhecimento do conteúdo das manifestações
negras apoiadas em arquétipos culturais e sociológicos
diferentes, e até mesmo opostos, ao seu.
A tentativa de realizar uma síntese, e possível osmose,
entre as culturas africanas e européias, resultou na criação
de um alfabeto ideográfico composto por cerca de 150 caracteres
gráficos. 40 desses trabalhos estarão no Museu Afro
Brasil.
Para o artista, a mais relevante transformação na
sua pintura – a modificação de conteúdo
maior do que impôs à forma, sem excluí-la – deu-se
após o entendimento da arte africana. “A arte negra
fez-me saber como se efetua a concentração do significar
e da carga mítica das formas. É assim que, na minha
pintura, a forma tornou-se símbolo e agente de um grande
poder atuante”, explica ele.
“É eloqüente o talento de José de Guimarães
em meio a tantas séries, cores e materiais, nessa forte ‘arte
mixmídia’”, destaca Emanoel Araujo, curador
da mostra e diretor do Museu Afro Brasil.
O que José de Guimarães fez com a arte africana
e o que essa arte fez em suas criações
José Maria Fernandes Marques soube enriquecer a sua arte
com influências externas. Depois de adotar o sobrenome artístico
Guimarães em 1961, em homenagem à sua cidade natal,
ele viajou o mundo. Atualmente vive e trabalha entre Lisboa (seu
ateliê fica no famoso bairro de Alfama) e Paris. Em 1981
integrou a representação portuguesa na XVI Bienal
de São Paulo.
Escultor de formas sinuosas, às vezes vazadas, contrapõe
a rigidez da matéria lisa e multicolorida, rasgada pela
luz fluida de néon, com grafismos, repetindo esses cortes
no interior da escultura.
Entre 1970 e 1974, ele produziu centenas de obras que até hoje
influenciam suas criações. Sua arte, então,
ficou miscigenada por duas culturas, numa transição
entre pintura e escultura, que resultou em esculturas bifaces de
representação e significado duplos, trabalhos que
também estão presentes na mostra brasileira.
Os primeiros híbridos culturais com acento na cultura africana
podem ser identificados em suas obras na série de estatuetas
angolanas de madeira, adquiridas por ele em feiras e lojas de arte
popular, que receberam suas interferências cromáticas.
Como colecionador, Guimarães mantém uma atitude decorrente
do reconhecimento e respeito que tem por outras culturas. “A
minha obra artística tem seguido o trilho dos navegadores
portugueses – desbravadores e criadores de uma mestiçagem –,
buscando e alimentando-se nas culturas de outras regiões”.
Sua coleção não só de Angola, mas principalmente
de toda a região centro-africana (Nigéria, Camarões,
Gabão, Mali, Burkina Faso, Sudão, Congo, Guiné,
Gana, Costa do Marfim, Togo e Benim) continua até hoje.
Algumas dessas peças, com Mambilas, Mendes, Kanacas, Tchokwes,
Baulés, Cabindas, Fangues, Bagas, Punos, Igbos, Markas,
Bambaras, Dogons, Kotas, Iorubás, Iakas e Dans, poderão
ser contempladas na exposição.
SERVIÇO
Exposição – África e Africanias de José de
Guimarães – Espíritos e Universos Cruzados
Curador: Emanoel Araujo
Local: Museu Afro Brasil – Espaço Petrobras
Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega
Parque Ibirapuera – Portão 10, fone 5579 0593
Visitação - Gratuita
De 06 de junho a 10 de setembro de 2006
De terça a domingo, das 10 às 18h
Realização:
Consulado Geral de Portugal em São Paulo e Museu Afro Brasil
Patrocínio:
Galp Energia; EDP – Eletricidade de Portugal;
LAZAM/MDS – Gestão de Seguros
.
Em vista do grande sucesso da exposição Carybé, inauguramos Revisitando Carybé, mostra que traz seleções especiais da curadoria original e permite que a obra do baiano, pintor, ceramista e ilustrador Mestre Carybé siga à disposição do público visitante
Hector Julio Paride Bernabó resolveu trocar o pomposo nome de batismo, argentino, por outro que significasse seu espírito e
o identificasse com a nova terra adotada, a qual de fato seria sua até a morte, e para além dela, já que a Bahia e a obra de Carybé estão entrelaçadas para sempre. Foi a Bahia que este intrépido senhor interpretou e reinventou em sua obra, com todos os seus encantos e desencantos, mas sempre "a amada e velha Bahia", como a chamamos, lhe servindo de eterno útero, essa noiva íntima do sol, essa deusa misteriosa de luz ardente, dama da sensualidade e da nudez. Talvez todas estas faces tenham seduzido aquele filho de Oxóssi, definitivamente.
Caribé é um artista de muitas frentes, e cada uma delas revela a sensibilidade extraordinária de sua expressividade.
Nossa exposição procura revelar a produção artística destas múltiplas criações de um só criador, sempre uno e sempre novo.
Mas como falar de sua obra sem falar de sua presença na Cidade do Salvador? Que contexto era aquele?
Carybé vem de um tempo de renovação das artes plásticas na Bahia, juntamente com um grupo de artistas igualmente insatisfeitos, um grupo que buscou a ruptura com os princípios acadêmicos de criação e lutou por um espaço de renovação. Um fato importante nessa época foi a volta de Jorge Amado e Zélia Gattai para a Bahia. A casa do dois no Rio Vermelho, em suas muitas festas e reuniões, era ponto de encontro para artistas e intelectuais da terra. Lá, a arte baiana estava por todo lado, desde o portão de ferro, desenhado por Carybé, até os azulejos, do mesmo artista, trazendo o símbolo de Oxóssi. Irmãos de santo, Jorge adorava Carybé, que adorava Caymmi, que adorava Carybé.
Esse Caribé, recém-chegado à Bahia, mesclou sua forte influência italiana, desde a cor ao registro de uma arquitetura imaginária, com personagens baianos. Trouxe ainda certa influência surrealista, estética que ele retoma durante toda a sua vida. Aos poucos sua obra vai se desvencilhando do jornalista, do designer e do ilustrador, ou mesclando todos os seus dotes, inclusive o do escritor. Ele não era chegado a qualquer categoria estanque. Foi um incorrigível defensor da figuração, um inquieto colorista, e sua obra alterna-se entre a pintura, o desenho e a escultura.
Do homem Caribé, ficará um exemplo de vida, de abnegação, de amigo carinhoso, atento, vivo, desprendido; aquele que usava comumente uma sandália, uma camisa aberta, onde se via o colar de turquesa verde-azulado, dedicado ao seu Oxóssi. Há pouco me contaram que, muito fragilizado, resolveu sair para uma reunião no Axé Opô Afonjá, coisa que não fazia há algum tempo. Por mais que sua mulher Nancy lhe rogasse e tentasse dissuadi-lo, pela sua fragilidade, assim mesmo ele foi. Depois da reunião, passando pela porta da casa de Xangô, caiu de joelhos e, irreverente como sempre, disse: – "Puta que pariu, me fodi". E morreu.
Caribé só poderia morrer como viveu: absolutamente livre, feliz, irreverente, e com todas as qualidades do guerreiro que foi.
Foi com sua espada, montado em seu cavalo, para a grande viagem de libertação total do ser humano.
A exposição A imagem do som de Dorival
Caymmi estará no Museu Afro Brasil, de 06 de maio a 06 de agosto.
Com patrocínio da Sabesp, traz pinturas, desenhos, fotografias
e instalações que, com interatividade, poderão
ser apreciadas com trilha sonora das músicas que inspiraram
os artistas.
A mostra faz parte do projeto criado e curado pelo designer
gráfico Felipe Taborda para homenagear os principais compositores
da música brasileira por meio da criação
visual de artistas contemporâneos, que está na sexta
edição. Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso,
Gilberto Gil e nomes do rock-pop brasileiro estiveram nas edições
anteriores. As criações baseadas nas canções
de Caymmi foram exibidas no Paço Imperial, Rio de Janeiro
em 2005.
“Caymmi dedicou belas canções, de corpo
e alma, à sua velha Bahia. Cantou ruas, ladeiras, comidas,
a vida, enfim. Soube, mais do que ninguém, apreender e
transmitir para que essa cultura permanecesse em nossa memória
para sempre. São composições que tocam profundamente
a alma brasileira”, diz o diretor do Museu Afro Brasil,
Emanoel Araujo.
Designers gráficos, fotógrafos, ilustradores,
escultores, artistas plásticos, cenógrafos e carnavalescos
interpretaram visualmente 80 composições do mestre
baiano. As músicas foram sorteadas entre os artistas que
tiveram um tempo determinado para realizar suas criações.
Cada obra está exposta ao lado da letra da música
e, próximo dela, um headfone permite ao visitante escutar
as canções. Não foi incomum observar, nas
edições anteriores, pessoas cantando a música
que está ouvindo, ampliando as características
da interatividade proposta.
No elenco estão nomes como Alex Cerveny, Andrucha Waddington,
Antônio Bernardo, Antônio Henrique do Amaral, Arnaldo
Antunes, Chico Bicalho, Cristina Portella, Dora Longo Bahia,
Franz Manata, Gringo Cardia, Guto Lacaz, Iole de Freitas, J.
R. Duran, Lan, Luiz Áquila, Marcello Grassmann, Maria
Bonomi, Mario Cravo Jr., Regina Silveira, Rosa Magalhães,
Tuca Reinés e Ziraldo, entre muitos outros.
“A força da beleza das composições
de Caymmi certamente contagiou os artistas, que apresentaram
um resultado de surpreendente criatividade”, destaca Taborda.
A montagem dessa exposição gera uma feliz coincidência. Três ícones da cultura baiana, de projeção
nacional, encontram-se nos andares do Museu Afro Brasil, simultaneamente:
Caymmi (cronista musical da Bahia e seus costumes); parte da
coleção do jornalista, poeta, intelectual e agitador
cultural baiano Odorico Tavares, com a mostra A mapoteca
do colecionador (em cartaz até 14 de maio), e O
universo mítico
de Hector Julio Paride Bernabó – o baiano Carybé (em
exibição até 2 de julho).
SERVIÇO
Exposição A imagem do som de Dorival Caymmi
Curador: Felipe Taborda
De 06 de maio a 06 de agosto de 2006
De terça a domingo, das 10 às 18h
Local
Museu Afro Brasil
Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega
Parque Ibirapuera – Portão 10, fone 5579 0593
Visitação - Gratuita
Realização
Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo – SMC
Instituto de Políticas Públicas Florestan Fernandes – IFF
Patrocínio
Sabesp
É uma homenagem ao povo negro, da África,
das Américas, da Europa, da Oceania, mas sobretudo do Brasil,
assim define o curador Emanoel Araujo. “A ele [negro do Brasil]
esta exposição é oferecida, para mostrar como
a presença desse povo atravessou todas as linguagens das
artes e todas as formas de representação, e incorporou
a todas elas, mesmo tendo contra si todos os estigmas, criados
como forma de defesa a ameaçadas hegemonias”, afirma.
A exposição reúne fotografias
em preto & branco, registros da cultura negra do País,
feitos por prestigiados artistas: Pierre Verger, Marcell Goutherout,
Maurren Bisilliat, Claudia Andujar, Nair Benedicto, Fabio Domingues,
Walter Firmino, Luiz Paulo Lima, Duada Firmo, Vantoem Junior, Eustáquio
Neves, Januário Garcia, Lita Cerqueira, Roberto Esteves,
Wagner Celestino, Bauer Sá e André Vilaron.
Segundo Emanoel, o negro buscou espaço para a representação
de seu corpo e sua alma, sem se importar se essa alma e esse corpo
incorporassem outras cores ou se de fato fossem apenas de uma só cor,
negra, cobre, branca, mulata ou cafuza, africana ou americana. “Aceitou
toda a provação dos sentidos, mas incorporou em seus
sentidos a força de sedução da sensualidade,
explodindo a fronteira entre as raças, para criar, na miscigenação,
uma só raça humana”, afirma. Segundo ele, ainda,
as obras da exposição expressam como o povo negro
soube unir as forças da natureza numa liturgia gloriosa
de deuses guerreiros e deusas de amor.
Traz pinturas, esculturas e objetos que destacam as nossas tradições
populares por meio de várias linguagens que revelam a criatividade
da arte genuína e das nossas mais profundas raízes.
Através do olhar de Emanoel Araújo, o público
vai apreciar a arte intuitiva e espontânea de pintores como
José Antonio da Silva, Maria Auxiliadora, Julio Martins da
Silva, Heitor dos Prazeres; de escultores como GTO, Chico Tabibuia,
Nuca, Nhô Caboclo, Vitalino, João Egídio, Artur
Pereira, as irmãs Maria; entre muitos outros artistas, além
de originais objetos funcionais que flertam com o mundo da arte..
Entre os artistas que expressam em sua obra a força da ancestralidade
estão Artur Pereira, nascido em Cachoeira do Brumado, Minas
Gerais, com suas esculturas que nascem da forma encontrada na natureza,
fazendo dali brotar seus presépios, suas árvores, seus
animais. Essa vertente da arte popular poderia ser explicada, segundo
Emanoel, quase como uma herança cultural veiculada pelo inconsciente
coletivo, pela qual o criador naturalmente encontra suas soluções
formais. Assim, artistas negros ou mestiços encontrariam em
suas obras soluções mais ou menos próximas de
sua origem mais remota. Chico Tabibuia é outro artista cuja
criação tem referência direta a uma ancestralidade
africana. Suas obras, de formas eretas e pontiagudas, poderiam ter
afinidade com os grandes falos de pedra que povoam a paisagem da
região Ioruba. Nhô Caboclo, Manuel Gracindo, Rafael
Rocha, Alcides Santos, Francisco da Silva, seriam outros exemplos
que ilustram essa ancestralidade, ou ainda os santos de nó de
pinho produzidos no século XIX pelos escravos do Vale do Paraíba
em São Paulo.
O crítico Clarival do Prado Valladares ressalta a escultura
religiosa nordestina (os ex-votos), as carrancas dos barcos do Rio
São Francisco, as imagens católicas dos santeiros setecentistas
como obras que se expressam nos atributos de uma estética
arcaica. Nessa vertente estão o escultor GTO, de Minas Gerais,
com suas esculturas povoadas de seres aprisionados em grades e formas
geométricas, que nos remetem a um tempo de templos sagrados,
assim como o cearense Nino, cujas esculturas totêmicas são
grandes formas que aprisionam personagens e bichos; e o pernambucano
Nuca, com suas obras que nos remetem a outras civilizações.
Mestre Vitalino não foi apenas um de nossos mais importantes
artistas, mas ainda um disseminador do fato criador da escultura
cerâmica, primeiro através da família e, depois,
dos companheiros que se formaram no Alto do Moura: Zé Caboclo,
Manuel Eudócio, Luiz Antônio, para mencionar apenas
alguns continuadores da tradição por ele inaugurada.
Se Mestre Vitalino foi o primor de criação do Alto
do Moura, Isabel Mendes da Cunha cumpriu o mesmo papel em Santana
do Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha.
“Em todos esses exemplos, há que se notar a continuidade
e transitividade do sagrado ao profano, entrelaçados ao ponto
de se tornarem indistinguíveis, no plano da criação
artística que suscitam”, explica Emanoel. A exposição
enfim traz uma produção que foi guardada pelo apelo
de sua beleza e o engenho de sua fatura e revela o longo processo
histórico de formação do trabalho no Brasil,
feito através das corporações de ofício,
que nunca separaram os mestres, a que chamamos artistas, dos artífices,
oficiais e aprendizes que com eles adquiririam a artesania própria
ao seu ofício.
As obras do pintor, gravador, desenhista, ilustrador, ceramista,
escultor, muralista, pesquisador, historiador e jornalista Carybé compõem
a exposição O universo mítico de Hector
Julio Paride Bernabó – o baiano Carybé,
que será instalada no Museu Afro Brasil – com patrocínio
da Petrobras – , de 28 de abril a 02 de julho deste ano.
A abertura acontecerá no dia 27 de abril (quinta-feira), às
19h.
Para Emanoel Araujo, diretor do Museu Afro Brasil e curador da
exposição, “um dos mais importantes artistas
baianos, por adoção e de coração,
Hector Bernabó é um artista de muitas artes” e
de muitos nomes. Adotou o cognome Carybé na juventude,
em referência a um peixe selvagem, e recebeu o apelido
de ‘capeta Carybé’ de seu amigo Jorge Amado.
Ainda segundo Araujo, o artista múltiplo não só retratou
os mais diferentes momentos da misteriosa cidade de Salvador,
mas foi também um profundo devoto do universo negro da
Bahia. “Este universo ele registrou, conviveu, viveu e
aprendeu como poucos o fizeram. Esta forma ‘africanamente’ de
ser que ainda reside na Bahia através dos deuses, das
Iyabás e das mães e pais de santo que cultuam,
em seus terreiros, os orixás trazidos como patrimônio
intangível do povo africano”.
Carybé foi igualmente um dos principais renovadores da
arte moderna da Bahia, junto a Mario Cravo Jr, Carlos Bastos,
Jenner Augusto e Rubem Valentim. E, ao lado de Jorge Amado, Dorival
Caymmi, Pierre Verger, Bina Fonyat e Odorico Tavares fez da Bahia
a mítica cidade religiosa e sincrética que ele
muitas vezes materializou através de seus magníficos
desenhos. Seu olhar foi profundo por ter aprendido as sutilezas
de uma sociedade mestiça e multicultural.
Muitas vezes o encontravam, não em sua casa ou ateliê,
mas no terreiro do Opô Afonjá, acompanhando Mãe
Senhora, de quem recebeu o posto de Obá da casa de Xangô.
Filho de Oxóssi, foi o Opô Afonjá que lhe
serviu de inspiração para a criação
de seu extraordinário álbum de aquarelas sobre
os rituais, as armas, as roupas e danças dos Orixás.
“Esta exposição, portanto, tem o caráter
de registrar a magnitude do trabalho deste artista através
de suas pinturas, desenhos e esculturas e os objetos da cultura
africana, afro-baiana e cristã que fazia de seu espaço
de trabalho um universo mágico da criação”,
diz Emanoel Araujo.
Carybé (Hector Julio Paride Bernabó)
(1911, Lanus, Argentina – 1997, Salvador, Bahia)
Viveu a infância entre Gênova e Roma, na Itália.
Mudou-se para o Brasil e freqüentou, no Rio de Janeiro,
a Escola Nacional de Belas Artes. Seguiu mais tarde para Salvador
(BA), onde se fixou definitivamente a partir dos anos 50. Seu
currículo inclui dezenas de exposições individuais
no Brasil e no exterior, e diversas participações
em exposições coletivas. Em 1956 teve sala especial
na Bienal de Veneza (Itália). Ilustrou livros de Mário
de Andrade (Macunaíma, edição da Sociedade
dos 100 Bibliófilos do Brasil, 1957, obra reeditada em
1979 pela Edusp, comemorativa do cinqüentenário do
romance, com texto de Antonio Bento); de Rubem Braga (A Borboleta
Amarela, 1953); de Gabriel Garcia Márquez (O
Enterro do Diabo, 1970); de Jorge Amado (O sumiço da santa: uma história
de feitiçaria, 1988) etc. Em 1996 expôs na Casa
da Galícia, em Madri (Espanha) e na Galeria Debran’t,
em Paris (França).
SERVIÇO
Exposição O
universo mítico
de Hector Julio Paride Bernabó – o
baiano Carybé
Local
Museu Afro Brasil – Sala Espaço Petrobras
Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega
Parque Ibirapuera – Portão 10
Visitação
De 28 de abril a 30 de julho de 2006
De terça a domingo, das 10h às 18h
O Museu Afro Brasil recebe a exposição Odorico
Tavares. Minha Casa Baiana. Mapoteca do colecionador. São
cerca de 350 obras em papel e documentos e livros da coleção
de Odorico Tavares, expostas ao público sob patrocínio
do Grupo Telefonica no Brasil.
Entre as obras sobre papel, compõem a exposição gravuras,
desenhos e aquarelas. Com destaque para nomes como Poty Lazarotto, Carybé,
Hélio Oliveira, Modesto Cuixart, Cândido Portinari, Joan Miró,
Georges Rouault, Henry Matisse, Lina Bo Bardi e Hansen-Bahia.
As edições dos livros publicados por Odorico Tavares compõem
a mostra. Os destaques são para a coletânea de ensaios Bahia
- imagens da terra e do povo, com ilustrações de Carybé;
e para o livro de poemas Livro de Luciano, dedicado ao neto Luciano
e ilustrado de Calasans Neto.
Completa o acervo da mostra vasta correspondência de Odorico Tavares, selecionada
por Emanoel Araujo. Esta coletânea apresenta sua fluidez cultural e seu
amplo círculo de amigos, dentre os quais Manoel Bandeira, Pablo Neruda,
Gilberto Freire, Dorival Caymmi, além de diversos artistas plásticos
e influentes pessoas do período, como Octávio Mangabeira. Há também
uma série fotográfica do francês Pierre Verger, pois, além
de amigos pessoais, foi o fotógrafo que acompanhou o repórter Odorico
Tavares durante suas grandes reportagens realizadas para a revista O Cruzeiro.
Histórico do Curador
O baiano, natural de Santo Amaro da Purificação,
Emanoel Araujo foi aprendiz de marceneiro e talhador. Aos 13
anos passou a trabalhar na Imprensa Oficial da sua cidade, na área
de composição gráfica.
Após completar o curso secundário, Emanoel mudou-se para Salvador,
onde cursou a Escola de Belas-Artes da Universidade Federal da Bahia.
Emanoel, que realizou sua primeira exposição individual aos vinte
anos de idade, tem obras figurando nos principais museus brasileiros, coleções
particulares e edifícios públicos.
No decorrer dos anos, realizou exposições individuais e coletivas
em vários estados brasileiros e em algumas partes do mundo. Nos 45 anos
de carreira recebeu mais de 20 premiações, dentre as quais destacam-se:
o Prêmio Odorico Tavares (Bahia/1970), a Medalha de Ouro
da III Bienal Gráfica de Florença (Itália/1972) e
dois prêmios por linguagens distintas (gravura e escultura); foi escolhido
o melhor gravador do ano (1974); e o melhor escultor do ano (1983), ambos concedidos
pela Associação de Críticos de Arte de São
Paulo. Já nos anos de 1988 e 1989 atuou, a convite, como Distinguished
CUNY Visiting Professor of Art – Of the City College of the City University
of New York” em Nova York (EUA).
O artista plástico dirigiu o Museu de Arte da Bahia (1981-1983);
a Pinacoteca do Estado de São Paulo (1992- 2002) e, atualmente,
dirige o Museu Afro Brasil. Além disso, foi Secretário
Municipal de Cultura de São Paulo (2004).
Foi, ainda, curador de mostras como O Universo Mágico do Barroco (1998), Negro
de Corpo e Alma, Carta de Caminha e Arte Popular (2000), Negras
Memórias, Memórias de Negros (2001) e O Imaginário
de José de Guimarães (2005).
Serviço:
Exposição: Odorico Tavares. A Minha Casa
Baiana – Mapoteca do colecionador Curadoria: Emanoel Araujo Local: Museu Afro Brasil – Pavilhão
Padre Manoel da Nóbrega - Pq. Ibirapuera, s/n. Portão
10 Período: de 13 de dezembro a 30 de maio Funcionamento: terça a domingo, das 10 às
18 horas. Informações para o público: (11)
5579-0593
www.museuafrobrasil.com.br Entrada: franca
Coloca em exposição os 100 trabalhos
doados por importantes nomes da arte presentes no cenário
brasileiro, para fazer parte do grande leilão em benefício
do museu, com Aloísio
Cravo. “É uma generosa contribuição
dos nossos amigos artistas plásticos, ninguém melhor
do que eles entendem a importância dessa causa que é de
todos os que de fato amam e se identificam com a nossa diversidade
cultural”, declara Emanoel Araujo. As pinturas, esculturas,
gravuras, fotografias e desenhos carregam nomes de prestígio,
entre eles, Hercules Barsotti, Tomie Ohtake, Julio Le Parc, Arcangelo
Ianelli, Flavio-Shiró, Fernando Lemos, Samico, Rubens Guerchman,
Cristina Canale, José Antonio da Silva, Claudia Andujar,
Miguel Rio Branco, Cássio Vasconcellos, Pierre Verger, Mario
Cravo Neto, Rômulo Fialdini, Caciporé, Toyota, Vlavianos
e do próprio Emanoel.
É uma exposição de fotos e
objetos desta figura lendária do mundo dos Orixás,
que completou 80 anos no último dia 9 de setembro e veio
a falecer logo em seguida. A Iyalorixá Dona Olga, tornou-se
conhecida pelo povo, por artistas e personalidades com seu Terreiro
do Alaketo, em Salvador. Entre fotos de Walter Firmo, Ademar Gondim,
Bubio Costa e Madalena Schwartz, a mostra traz alguns de seus pertences,
como o vestido que o costureiro Denner fez especialmente para ela,
e sua bela roupa de Iansã.
A mostra reúne originais do livro Quarto
de Despejo (1960), as versões internacionais da obra
que conquistou cerca de 30 idiomas, além de fotos, manuscritos
da autora e documentos pessoais provenientes dos acervos particulares
de sua filha Vera e do jornalista Audálio Dantas. (mostras
da exposição fazem parte hoje do acervo do Museu
Afro Brasil)
Carolina Maria de Jesus (MG 1914-SP1977),
negra, neta de escravos, escritora semianalfabeta,
imortalizou-se com seu diário-reportagem Quarto
de Despejo (1960), no qual relata a sua vida
miserável e a dos moradores da extinta Favela
do Canindé, em São Paulo. O poder explosivo
de sua obra, com forte caráter de denúncia
social, alcançou um sucesso impressionante
e inesperado. A primeira edição, de
10 mil exemplares, se esgotou em menos de uma semana
e o livro foi traduzido para cerca de trinta idiomas,
merecendo sucessivas reedições com
tiragens superiores a 100 mil unidades. A obra foi
adaptada para teatro, rádio, televisão
e cinema. A autora publicou ainda Casa de Alvenaria 1961; Pedaços
de Fome 1963; Provérbios 1963;
e Diário de Bitita 1982 (Póstumo).
A mostra traz 43 fotografias (1,20 x 1,00 m), trabalhos
recentes (2004) do artista Mario Cravo Neto, que abordam o universo
religioso de matrizes africanas. Dahomey e Whydah eram dois reinados
da hoje República do Benin, na África, de onde saíam
os escravos que vinham para o Brasil. A exposição
fundamenta-se na frase de Sören Kierkegaard: “a criação
de um mundo onírico, utópico, delirante e potente
que o universo da arte propõe, enfeitiça positivamente
o homem a si mesmo, desde que o impossível se atinge pelo
absurdo da esperança”. Para Mario Cravo Neto “os
tigres estão perdendo o seu espaço e o mundo perdendo
seus tigres”. Segundo o poeta e Otun Oba Até do Axé Opô Afonjá – Ildásio
Tavares, o que importa na obra de Mario Cravo Neto é o adestramento
da percepção, o olho aguçado que, ao captar
o exterior, pode fazer uma leitura profunda do tema, pode dar uma
interpretação tanto mais verdadeira quanto menos
lógica, enxergando na aparência efêmera dos
rituais uma permanência intrínseca, que a magia da
fotografia revela".
Sala Especial Museu Afro Brasil – Homenagem
a Carolina Maria de Jesus, Pierre Verger, Irmandade da Boa Morte
e aos 80 anos de D. Olga do Alaketo.
Exposição com obras dos artistas Adenor Gondim; Cristina Mendes;
Dias Paredes; Edival Ramosa; Fábio Domingues; Jorge dos Anjos; Mario Cravo
Neto; Maurino Araújo, Rubem Valentim e Uiso Alemany.
Com a proposta de construir um pequeno, mas instigante,
passeio por esta história, a mostra, aberta
ao público no dia do aniversário da
cidade, apresenta uma série de curiosidades.
Na questão urbana, traz mapas raros da cidade,
datados de 1874 e de 1890. Estes mostram os sítios
que ainda circundavam o centro de São Paulo
e deram origem aos vários bairros. Outro mapa
valioso é o do Jardim da Luz, que revela seu
projeto paisagístico original, indicando exatamente
cada espécie plantada em cada local do parque.
A mostra traz ainda a evolução da cidade
no começo do século XX, reunindo imagens
dos projetos de Ramos de Azevedo como o da construção
do Teatro Municipal, fotos de sua inauguração
em 1911, o convite original para o banquete de abertura,
além de vários postais da cidade desta época.
Nas artes, a exposição apresenta desde
os famosos “paulistinhas” - imagens sacras
de intenção barroca, mas de fatura
popular, produzidas em escala já pré-industrial
-, passa pelos artistas que saíram do Liceu
de Artes e Ofícios como Rafael Galvez, outros
filhos de migrantes como Mick Carnicelli e Odetto
Guersoni, ou mesmo migrantes como Massao e Aline
Okinaka, que produziram belas pinturas retratando
a cidade, para chegar enfim até a obra dos
modernistas, com esculturas, desenhos e publicações
raras, como algumas primeiras edições
de Mário e Oswald de Andrade.
Na história de
São Paulo, a velha
guarda do samba paulista
não poderia ser
esquecida. Com fotos
feitas por Wagner Celestino
de Oliveira, a mostra
traz os belos rostos
negros de sambistas famosos,
como Seu Nenê da
Vila Matilde, Silval
Rosa, Mercadoria, Dona
Laura, Zelão da
Rosa, Paulo Portela,
Toniquinho Batuqueiro,
Divino. Além disso,
registra os antigos carnavais
paulistanos, incluindo
os desfiles das associações
operárias anarquistas
da Lapa ou os blocos
carnavalescos da Barra
Funda, de onde se originou
a Escola de Samba Camisa
Verde e Branco.